Reabsorções Radiculares – Entrevista Dr. Jairo Curado

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Reabsorções radiculares são um tema delicado e de interesse de qualquer ortodontista. Podem ser fatores limitantes ao tratamento ortodôntico e sua etiologia e prevalência ainda são muito debatidas na literatura ortodôntica. Entrevistamos um especialista no assunto para entender como as reabsorções acontecem e como o clínico pode se prevenir.

Na nova fase do blog Ortodontia Descomplicada, estamos buscando também um diálogo com os especialistas em ortodontia, por isso estou inaugurando a Seção do Ortodontista, uma área do blog mais científica, voltada para o profissional. Ao mesmo tempo, vou tentar manter as coisas “descomplicadas”, com temas e linguagem acessíveis para o clínico.

E é uma honra poder inaugurar essa seção com um profissional que admiro muito, o Dr. Jairo Curado, mestre e especialista em ortodontia pela UFRJ, Doutor em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina da UFG, é diplomado pelo BBO e foi coordenador do curso de especialização em Ortodontia da ABO-GO por mais de 20 anos e esse ano foi presidente de honra do Congresso Internacional de Odontologia do Centro Oeste.

O Dr. Jairo tem uma linha de pesquisa interessante abordando reabsorções radiculares, e concordou em participar de uma entrevista para o blog abordando sua tese que foi publicada como artigo na Dental Press Journal of Orthodontics de Julho/Agosto de 2013 recebendo o selo de escolha do editor.

Reabsorções radiculares são um dos efeitos colaterais de tratamentos ortodônticos e uma das maiores preocupações de todo ortodontista. O acompanhamento imagiológico de Reabsorções Radiculares Apicais (RRA) é tradicionalmente feito com Radiografias Periapicais (RP), mas uma nova ferramenta se fez disponível para o ortodontista clínico nos últimos anos, a Tomografia Computadorizada de Feixe Cônico (TCFC).


ortodontia jairo curado

Reabsorções Radiculares em Ortodontia

Ortodontia Descomplicada – Na sua recente tese de Doutorado, um dos assuntos abordados foi a RRA, um tema relevante para o clínico. Qual foi o resultado da comparação dos exames de RP com TCFC?

Jairo Curado – As RP não se mostraram melhores para a detecção das RRA. As RPs mostraram maior número de RRAs. O que realmente foi constatado foi que, às vezes, as RPs ( 2D) superestimam ou apontam existência de RRA onde na realidade não há RRA, quando analisada por TCFC (3D), considerada “padrão ouro”. Isto ocorreu mais frequentemente na região posterior (pré-molares e molares), devido à sobreposição de imagens de raízes vestibular e lingual e outras estruturas anatômicas, quando se analisa em 2 dimensões (RP), dando o que poderia ser chamado de “falso positivo”. No estudo realizado com TCFC, ficou evidenciado que os dentes posteriores foram os menos afetados por RRA. Conclui-se que as TCFC são muito mais precisas na detecção e na avaliação do grau de RRA.

ortodontia reabsorcao tomografia periapical
Essa imagem mostra um exemplo de reabsorção detectada na RP, mas ausente na CBCT (Curado, et al).

OD – Seria essa uma aplicação que justificaria a substituição dos exames periapicais de rotina nesses dentes por TC no tratamento ortodôntico?

JC – Devido à radiação e ao custo das TCFC, eu não recomendaria o uso das TC com esta finalidade específica. No entanto, quando se obtém TCFC com a intenção de documentação ortodôntica completa, substituindo as periapicais, panorâmica, oclusais, cefalométrica, avaliação das ATMs e outras, as TCFC expõem o paciente a uma menor quantidade de radiação, com maior benefício. Outra indicação para utilização de TCFC seria a avaliação do grau de extensão de uma RRA severa e de diagnóstico duvidoso por meio de RP ou avaliação de assimetrias dento-crânio-faciais (PORTO,2014).

OD – Sua pesquisa demonstrou de maneira significante que existe uma maior reabsorção em dentes envolvidos em tratamentos ortodônticos com extrações. De que maneira o clínico pode levar esses resultados pra sua prática diária?

JC – A extração dentária demonstrou ser um fator de risco para o surgimento de RRA durante a movimentação ortodôntica. A frequência de dentes com RRA foi maior no grupo de tratamentos ortodônticos com extrações, do que no grupo sem extrações. Uma justificativa para estes resultados pode estar no fato de que, em tratamentos ortodônticos com indicação de extrações, movimentos mais extensos são necessários (SEGAL, 2004). O profissional quando necessitar de extrações para uma grande recolocação incisal deve utilizar forças mais leves. Quando em presença de incisivos com alteração de forma radicular, história de trauma, dilacerações ou com RRAs já presentes deve utilizar forças leves e intercaladas com períodos de repouso.

OD – Ainda sobre reabsorções radiculares, qual seria o seu conselho para o ortodontista clínico?

JC – Sabendo que:

  • Os dentes anteriores são os mais afetados (WELTMAN, 2010);
  • As RRAs normalmente aparecem nos três primeiros meses do tratamento (SMALE, 2005);
  • Há dentes com maior probabilidade de ocorrerem RRA;
  • As RRAs. cessam seu progresso quando cessa o estímulo (WELTMAN, 2010).
ortodontia reabsorção radicular
Smale et al afirmam que reabsorções podem ser detectadas nos primeiros 3 meses de tratamento

Podem-se sugerir as seguintes condutas:

  1. Obter radiografias antes do tratamento;
  2. Identificar os dentes mais susceptíveis;
  3. Evitar extrações, quando possível;
  4. Eliminar hábitos;
  5. Utilizar forças leves e “intermitentes”;
  6. Solicitar RPs dos incisivos e dentes mais susceptíveis após os 3 a 6 primeiros meses de tratamento;
  7. Proporcionar períodos de repouso (interrupções em retrações e movimentos extensos);
  8. Se houver algum indício de presença de RRA, deve-se parar com otratamento e aguardar 2 a 3 meses antes de reiniciar. A literatura informa que há um remodelamento da raiz (WELTMAN, 2010). A quantidade e severidade de RRA é significativamente menor em pacientes que tiveram a pausa do que naqueles sem interrupção (Levander , 1994).
  9. Makedonas D e Hansenb K (2008). Pesquisaram as condutas dos ortodontistas em relação aos pacientes já portadores de RRA. Nos casos em que já há RRA moderadas (2mm – 1/3 da raiz) no pré- tratamento, a conduta mais comum foi o uso de forças mais leves, períodos de repouso, redução da duração do tratamento e alteração do plano de tratamento. Nos casos mais graves (1/2 da raiz) a conduta mais comum foi não tratar e alterar o plano de tratamento.

Reabsorções radiculares

OD – Foi observada maior reabsorção radicular em movimentos dentários específicos?

JC – Não. O estudo não teve este objetivo e nem foi possível fazer alguma inferência a este respeito. Contudo a literatura aponta a intrusão como o movimento mais relacionado ao aparecimento de RRA (WELTMAN, 2010).


Referências:

  • Porto OL, Freitas JC, Alencar AHG, Estrela C. The use of three-dimensional cephalometric references in dentoskeletal symmetry diagnosis. Dental Press J Orthod. 2014 Nov-Dec. 19(6):78-85.
  • Segal GR, Schiffman PH, Tuncay OC. Meta analysis of the treatment-related factors of external apical root resorption. Orthod Craniofacial Res 2004; 7:71–78.
  • Smale I et al. Apical root resorption 6 months after initiation of fixed Orhtodontic appliance therapy . Am J Orthod Dentofacial Orthop 2005; 128:57-67.
  • Levander E, Malmgren O, Eliasson S. Evaluation of root resorption in relation to two orthodontic treatment regimes. Eur J Orthod 1994;16:223-28.
  • Makedonas D; Hansenb K. Diagnosis, screening and treatment of root resorption in orthodontic practices in Greece and Sweden. The Angle Orthodontist 2008;78(2): 248-53.
Alexandre da Veiga Jardim
Cirurgião-dentista, especialista em ortodontia pela ABO-GO e mestrando em ciências da saúde pela UFG.

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