A expectativa está nos olhos de quem vê

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A ortodontia é um tratamento que na maior parte das vezes vai tentar atender a uma queixa estética de um paciente. E pela estética ser um conceito extremamente subjetivo, estamos sujeitos a falhar por um motivo apenas: expectativas irreais por parte de nossos pacientes.

Essa é uma preocupação real na cirurgia plástica ou em qualquer área que lida diretamente com a estética. Nos EUA, onde o número de processos na área de saúde é crescente, esse é um tema muito trabalhado.

A ortodontia no Brasil está numa posição muito delicada juridicamente. A odontologia como um todo se tornou (em grande parte por culpa do próprio cirurgião-dentista) uma especialidade com obrigação de resultados, ao invés de obrigação de meios. Ou seja, temos a desvantagem jurídica de termos que “entregar o produto” à altura da expectativa do paciente.

O ortodontista tem perante si um grande problema: pacientes (e outros dentistas) nos cobram muito na questão de tempo de tratamento, previsibilidade de resultados e qualidade de resultado. Cada um desses questionamentos é um desafio a parte, mas o último é uma preocupação em especial por uma particularidade em especial: quando a qualidade do resultado envolve a estética, como podemos julgar se o resultado é bom ou ruim, se a beleza está no olho de quem vê?

E o pior de tudo: existem pacientes com expectativas irreais e quase patológicas. Será que compensa você enfrentar uma luta perdida?

Hoje vamos falar sobre dois tipos de pacientes que todo ortodontista deve estar atento: Pacientes portadores de Transtorno Dismórfico de Personalidade e o paciente SIMON.

Expectativas ortodontia

Transtorno dismórfico corporal

Você já pode ter encontrado esse paciente, talvez só não soubesse classificar.

É o paciente que tem uma preocupação, algumas vezes beirando o irracional, com algum detalhe, seja no rosto ou no sorriso.

O paciente que tem prejuízos no seu meio familiar ou social, emocionalmente comprometido devido a um problema que só ele vê.

Geralmente esse paciente espera que o tratamento ortodôntico ou orto-cirúrgico seja uma mudança completa na sua vida. Para você entender, você se torna responsável por realizar expectativas que vão desde conseguir um melhor emprego, mais amigos, um relacionamento até o fim de todos os problemas que essa pessoa tem ou acredita ter em qualquer aspecto da sua vida.

Estética e ortodontia

De acordo com a psicóloga Camila Wolf, autora do projeto Terapia a Distância, a pessoa diagnosticada com transtorno dismórfico corporal apresenta uma preocupação com alguma parte do seu corpo, que considera feia, defeituosa ou inadequada. Precisamos tomar cuidado para não banalizar sua percepção que, embora seja incompatível com o olhar do outro, para ela, é bem real.

Todos nós já passamos por isso, em algum momento, mas em menores proporções. Como por exemplo, quando vamos a algum evento e percebemos que nossa roupa não está apropriada para a situação. Naquele momento, ficamos incomodados, achando que estão todos nos olhando ou julgando.

É assim que um paciente com TDC se sente, porém, o sofrimento é muito mais intenso e acontece diariamente.

Sua autoestima fica prejudicada, e ele passa a evitar situações, pessoas e lugares para não se expor ao julgamento alheio.

É comum vermos esse tipo de paciente procurar cirurgias estéticas, porém se torna um perigo para o profissional que o atende, que pode corrigir o “defeito”, mas não a distorção na percepção.

O ideal seria um acompanhamento psicológico prévio, para cuidar das alterações na percepção, e posteriormente, realizar as intervenções no corpo físico. Caso contrário, os resultados serão insatisfatórios, e ele provavelmente irá recorrer a novos procedimentos.

Foi sugerido que uma das esposas de Pablo Picasso sofria desse transtorno. Em uma de suas pinturas ele a retratou em frente a um espelho. A imagem refletida têm os cabelos envelhecidos e corpo disforme. Uma mancha que toma pequena parte do rosto da mulher, no espelho se espalha por quase toda a face.

transtorno dismórfico corporal e ortodontia
Garota em frente ao espelho. Pablo Picasso.

Cuidado com o SIMON

Pacientes masculinos com um perfil específico são um foco de preocupação na cirurgia plástica e deveriam ser também para nós, pois nossa área de trabalho compartilha várias similaridades com a deles.

SIMON é um acrônimo utilizado pelos cirurgiões plásticos. Significa:

  • Single (solteiro)
  • Immature (imaturo)
  • Male (masculino)
  • Over-expectant (expectativas excessivas)
  • Narcissistic (Narcisista)

São pacientes do sexo masculino, geralmente jovens, que moram com os pais. Estes pacientes tendem a ter uma expectativa irreal dos resultados do tratamento e podem se tornar um verdadeiro problema em casos cirúrgicos com queixa principal estética.

Ortodontia e narcisissmo
Narciso de Caravaggio

Fique de olho

Observe alguns comportamentos dos seus pacientes na primeira consulta.

Eles já vêm com uma queixa específica em mente, com foco excessivo na mesma?

Levam fotografias para mostrar detalhes pequenos que passariam despercebidos?

Já pesquisaram técnicas na internet, tentando te dizer o que fazer e como deve ser o tratamento?

Passaram por alguma mudança de vida recente (divórcio, término de relacionamento, perda de emprego)?

Mostram fotos de artistas e dizem que querem que “o queixo fique igual ao dele?” (ou qualquer outra parte da face).

Têm expectativas de mudanças drásticas de vida devido ao resultado da cirurgia?

Esses são alguns dos padrões de comportamento que devem acender um alerta durante sua anamnese. O resultado final de nosso trabalho é limitado pela expectativa do paciente. Apenas ultrapassando essa expectativa o paciente ficará satisfeito. Caso contrário, se prepare para a possibilidade de conflitos antes do término do tratamento, especialmente no pós-cirúrgico.

Pacientes que exibem expectativas e características irreais podem ser indicados (de maneira discreta) para uma avaliação com um psicólogo previamente ao tratamento. Isso pode te dar apoio para fazer seu trabalho sem uma pressão irreal.

Para pacientes que se recusam a isso, pode ser interessante simplesmente recusar o caso. Isso pode evitar que você se comprometa com um resultado que não pode cumprir.

Alexandre da Veiga Jardim
Cirurgião-dentista, especialista em ortodontia pela ABO-GO e mestrando em ciências da saúde pela UFG.

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