Análise crítica de artigos: Uma necessidade

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“A ciência não existe para ser admirada, existe para ser questionada”

-Manual da Organização Mundial de Saúde.

Artigos científicos em ortodontia

Análise crítica de artigos

A leitura de artigos científicos é parte fundamental da formação dos ortodontistas e de qualquer profissional da área de saúde. Lá estão as novidades da tecnologia e dos desenvolvimentos em nossa profissão.

Um livro consegue condensar e expor de maneira didática um conteúdo para o clínico, porém, eles geralmente oferecem apenas o ponto de vista do autor, sem muito espaço para a comparação com outros autores e correntes de pensamento. Além do mais, frequentemente ficam desatualizados pouco após serem publicados. Artigos obrigatoriamente devem “discutir” seus achados com a literatura corrente, o que dá uma visão mais ampla para o clínico, além de serem geralmente o que há de mais novo na literatura.

Porém, nem todo artigo é bom e você iria se surpreender em saber a quantidade de artigos que possuem falhas “fatais”.

Então, como saber se um artigo é bom ou não? Como fazer a análise crítica de artigos?

Essa é mais uma postagem da nossa coluna Academia, focada no lado científico da ortodontia.

Nem tudo que reluz…

A seleção, análise  crítica de publicações é necessária para se  manter atual na nossa prática. Isso também é uma demanda dos princípios de prática baseada em evidência. Além do conteúdo, é importante um entendimento da metodologia estatística. 1

Anualmente 3 milhões de artigos são publicados em periódicos de biomedicina, 50 ensaios clínico randomizados relacionados a odontologia são produzidos todo mês e apenas 14% dessa pesquisa é utilizada no dia-a-dia  2. Alguns autores chegam a considerar que apenas 10%-15% da literatura científica acrescenta algo para nossa prática e o resto possui algum tipo de falha metodológica que invalida seu resultado 3. Isso pode ser visto facilmente em revisões sistemáticas, que avaliam toda a literatura presente e acabam encontrando poucos artigos científicos de qualidade.

Análise crítica de artigos

Análise crítica de artigos

Antes de iniciar a leitura de um artigo, é recomendável a leitura de uma revisão, revisão sistemática ou meta análise para uma visão geral do assunto [xyz-ihs snippet=”sup”]1[xyz-ihs snippet=”sup2″]. Dessa maneira você já tem algum embasamento no tópico, mesmo que seja algo novo para você. Isso facilita em muito uma análise crítica do artigo.

Artigos podem ser divididos em primários e secundários. Primários são estudos que envolvem:

  1. Pesquisa básica (criação de novos métodos de pesquisa e procedimentos)
  2. Pesquisa clínica (estudos que envolvem terapias, medicamentos e procedimentos, como relatos de casos ou ensaios clínicos randomizados).
  3. Epidemiológicos ( que avaliam a incidência de doenças na população, sendo úteis para nos dizer quais áreas precisam de mais pesquisa ou atenção dos nossos especialistas).

Estudos secundários são estudos que vão revisar a literatura presente, como revisões de literatura, revisões sistemáticas ou meta-análises. São muito úteis principalmente para o clínico, pois podem dar uma visão geral de um assunto, respondendo uma pergunta clínica. Por agregar vários artigos e serem altamente críticas na seleção dos artigos, revisões sistemáticas são escolhas interessantes. Se eu tivesse que escolher um artigo por mês para ler, eu escolheria uma revisão sistemática. 4.

Artigos são geralmente escritos no formato IMRAD: Introduction, Methods, Results, Discussion. Um artigo deve ser criticado com base principalmente nos seus métodos. Se você vai descartar um artigo, você deve fazê-lo antes mesmo de ver os resultados. Um artigo de baixa qualidade é de baixa qualidade não importando se os achados são estatisticamente significantes, se seus objetivos são ótimos ou se os resultados são promissores. O método como o artigo é feito é o que realmente importa[xyz-ihs snippet=”sup”]3[xyz-ihs snippet=”sup2″].

Algumas perguntas a se fazer ao ler artigos científicos

De acordo com Greenhalgh[xyz-ihs snippet=”sup”]3[xyz-ihs snippet=”sup2″], devemos atentar para os itens:

  • Amostras muito pequenas
  • O design do estudo foi errado.
  • O estudo não teve um grupo controle, ou foi feito de maneira errada.
  • O protocolo de estudo inicial teve que ser alterado por motivos práticos (como dificuldades em conseguir pacientes para o estudo)
  • A análise estatística foi feita incorretamente.
  • As conclusões não refletem os dados do estudo.

Também pode ser interessante fazer as seguintes perguntas a:

  • Qual o tema do artigo?
  • Como esse tema se adequa a minha prática?
  • A população da qual a amostra de pacientes é retirada se compara à minha prática?
  • O grupo controle está adequadamente comparado ao grupo experimental?
  • Foi feito o cálculo prévio da amostra necessária para se realizar o estudo?
  • Os métodos estão descritos com clareza?
  • A randomização dos pacientes foi feita de maneira correta?
  • Os examinadores e pacientes estiveram cientes da intervenção (blinding)? Idealmente nenhum dos dois deveria saber qual a intervenção está sendo realizada, na ortodontia isso é geralmente difícil de se conseguir com os pacientes. Mas é possível com os examinadores.

Apesar de ser muito mais fácil achar buracos em artigos de outras pessoas do que criar uma boa pesquisa, a análise crítica de artigos é um exercício fundamental para que sua prática seja de alta qualidade. Apesar dos nossos colegas terem se dedicado muitas vezes durante anos fazendo sua pesquisa, é nossa obrigação para com o paciente sermos críticos do que aplicamos em nossa prática clínica.

Eu estou começando meu mestrado agora e vendo como é difícil e trabalhoso conduzir pesquisa. No Brasil os subsídios não são o suficiente e boa parte dos artigos vem do meio acadêmico. O pesquisador acaba muitas vezes bancando a pesquisa do próprio bolso. Porém, pesquisa não existe para ser apreciada, existe para ser criticada. Se vamos oferecer o melhor para nossos pacientes, devemos saber filtrar o que é utilizável e o que não é.

Por ser uma postagem de blog, não é possível cobrir todos os aspectos desse assunto. Eu voltarei a falar sobre a análise crítica de artigos futuramente. Quem se interessar e quiser saber mais, recomendo acessar os artigos na bibliografia e o excelente blog do professor Kevin O´Brien, que faz uma análise crítica bem completa de artigos (a seção de comentários também é sempre muito boa).

Alexandre da Veiga Jardim
Cirurgião-dentista, especialista em ortodontia pela ABO-GO e mestrando em ciências da saúde pela UFG.
  1. Duprel, J.B. Critical Appraisal of Scientific Articles. Dtsch Arztebl Int 2009; 106(7): 100–5
  2. Flores-Mir C. Simpósio de Revisões Sistemáticas. UNB 12/4/16
  3. Greenhalgh T. How to read a paper: The basics of evidence-based medicine. Londres: BMJ books. 2 ed. 2001
  4. Röhrig et al. Types of study in medical research – Part 3 of a
    series on evaluation of scientific publications. Dtsch Arztebl Int 2009; 106(15): 262–8

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